segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Adormecida


Uma noite, eu me lembro... Ela dormia 
Numa rede encostada molemente... 
Quase aberto o roupão... solto o cabelo 
E o pé descalço do tapete rente.
'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste 
Exalavam as silvas da campina... 
E ao longe, num pedaço do horizonte, 
Via-se a noite plácida e divina.
De um jasmineiro os galhos encurvados, 
Indiscretos entravam pela sala, 
E de leve oscilando ao tom das auras, 
Iam na face trêmulos — beijá-la.
Era um quadro celeste!... A cada afago 
Mesmo em sonhos a moça estremecia... 
Quando ela serenava... a flor beijava-a... 
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
Dir-se-ia que naquele doce instante 
Brincavam duas cândidas crianças... 
A brisa, que agitava as folhas verdes, 
Fazia-lhe ondear as negras tranças!
E o ramo ora chegava ora afastava-se... 
Mas quando a via despeitada a meio, 
P'ra não zangá-la... sacudia alegre 
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia 
Naquela noite lânguida e sentida: 
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas! 
"Virgem! — tu és a flor da minha vida!..."

Castro Alves

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Epifanias

O espírito dela está perdido em seus próprios devaneios, um afeto que se prolifera a cada instante de sua existência. Um afeto indubitavelmente puro, ou talvez, com um toque de malícia. Uma límpida malicia. As rosas que eram brancas foram levemente tingidas de vermelho com o sangue dela. O sol que a guiava da escuridão, calou-se e tornou-se escuro, mal e embravecido. Calou-se por tanto tempo que agora, ela já sabia dominar a escuridão. Doce escuridão. Epifanias ainda surgem na mente dela, dilacerando todo seu ser, sendo impossível esquecer, aquele doce ser. Um oceano de lágrimas surge na face dela, tocando cada pedaçinho de resquícios dos bons momentos que ainda lhe guarda no peito. Um peito constituído agora, apenas de nostalgias... Um peito vazio de afeto, e fechado para um novo amor. 

Das tantas memórias ocultas

Tu,que és possuidor de minha alma e dono de todos meus sonhos,poderia eu, dar-lhe a carne virgem em busca de lascivo afeto e prazer.Ambos saberiam desfrutar esse prazer.O prazer do querer,do sentir,do interminável,do gosto tênue entre a inocência límpida e o pecado violento dado aos homens.Histórias belas e sujas chegariam aos meus ouvidos após o ato libidinoso,palavras intensas resultariam em choques em meu corpo,que junto ao teu,pareciam se encaixar de um modo quase que perfeito.A sedação chegaria como a primavera em nossa carne,calma,quente,coberta de flores novas,coberta de sensações inimagináveis até aquele presente momento. A eminência floresce em teus olhos que são tão frios e escuros como o crepúsculo daquela noite,um olhar tendencioso e misterioso que só as flores de Adônis era capaz de compreender.
O inverno retornaria,mas a nostalgia daquele instante duraria para sempre. Na carne,na alma,na memória e nos sonhos...sim,até nos sonhos.