sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Soneto 116


De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.
 Willian Shakespeare

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Adormecida


Uma noite, eu me lembro... Ela dormia 
Numa rede encostada molemente... 
Quase aberto o roupão... solto o cabelo 
E o pé descalço do tapete rente.
'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste 
Exalavam as silvas da campina... 
E ao longe, num pedaço do horizonte, 
Via-se a noite plácida e divina.
De um jasmineiro os galhos encurvados, 
Indiscretos entravam pela sala, 
E de leve oscilando ao tom das auras, 
Iam na face trêmulos — beijá-la.
Era um quadro celeste!... A cada afago 
Mesmo em sonhos a moça estremecia... 
Quando ela serenava... a flor beijava-a... 
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
Dir-se-ia que naquele doce instante 
Brincavam duas cândidas crianças... 
A brisa, que agitava as folhas verdes, 
Fazia-lhe ondear as negras tranças!
E o ramo ora chegava ora afastava-se... 
Mas quando a via despeitada a meio, 
P'ra não zangá-la... sacudia alegre 
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia 
Naquela noite lânguida e sentida: 
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas! 
"Virgem! — tu és a flor da minha vida!..."

Castro Alves

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Epifanias

O espírito dela está perdido em seus próprios devaneios, um afeto que se prolifera a cada instante de sua existência. Um afeto indubitavelmente puro, ou talvez, com um toque de malícia. Uma límpida malicia. As rosas que eram brancas foram levemente tingidas de vermelho com o sangue dela. O sol que a guiava da escuridão, calou-se e tornou-se escuro, mal e embravecido. Calou-se por tanto tempo que agora, ela já sabia dominar a escuridão. Doce escuridão. Epifanias ainda surgem na mente dela, dilacerando todo seu ser, sendo impossível esquecer, aquele doce ser. Um oceano de lágrimas surge na face dela, tocando cada pedaçinho de resquícios dos bons momentos que ainda lhe guarda no peito. Um peito constituído agora, apenas de nostalgias... Um peito vazio de afeto, e fechado para um novo amor. 

Das tantas memórias ocultas

Tu,que és possuidor de minha alma e dono de todos meus sonhos,poderia eu, dar-lhe a carne virgem em busca de lascivo afeto e prazer.Ambos saberiam desfrutar esse prazer.O prazer do querer,do sentir,do interminável,do gosto tênue entre a inocência límpida e o pecado violento dado aos homens.Histórias belas e sujas chegariam aos meus ouvidos após o ato libidinoso,palavras intensas resultariam em choques em meu corpo,que junto ao teu,pareciam se encaixar de um modo quase que perfeito.A sedação chegaria como a primavera em nossa carne,calma,quente,coberta de flores novas,coberta de sensações inimagináveis até aquele presente momento. A eminência floresce em teus olhos que são tão frios e escuros como o crepúsculo daquela noite,um olhar tendencioso e misterioso que só as flores de Adônis era capaz de compreender.
O inverno retornaria,mas a nostalgia daquele instante duraria para sempre. Na carne,na alma,na memória e nos sonhos...sim,até nos sonhos. 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

À Noite


A música no jardim
tinha dor inexplicável.
Um cheiro de maresia
vinha das ostras no gelo.

Ele disse: "Sou fiel!"
e tocou-me no vestido.
Tão diverso de um abraço
era o toque dessas mãos.
  

Como quem acaricia
um gato ou um passarinho,
sorria, com os olhos calmos,
sob o ouro das pestanas. 

A voz triste dos violinos
cantava, em meio à névoa:
"Dá graças a Deus que enfim
estás a sós com o amado".
Ana Akhmátova

Treze Versos


E finalmente pronunciaste a palavra

não como quem se ajoelha,

mas como quem escapa da prisão

e vê o sagrado dossel das bétulas

através do arco-íris do pranto involuntário.

E à tua volta cantou o silêncio

e um sol muito puro clareou a escuridão

e o mundo por um instante transformou-se

e estranhamente mudou o sabor do vinho.

E até eu, que fora destinada

da palavra divina a ser a assassina,

calei-me, quase com devoção,

para poder prolongar esse instante abençoado.

Ana Akhmátova

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Enigmática Nostalgia

Lento tempo que penetra em meu corpo e dilacera minha alma,que me guia até a escuridão e que cobre meus olhos da tão sublime e enigmática beleza. Terei eu o mesmo destino de Ofélia?Oh,como a loucura me consome,como a solidão me abastece e como o caos se multiplica.Percorrendo tempos imaginários,me perco em ti,nos bons momentos memoráveis que ainda me trazem um pouco de vida. O quão enigmático és teu olhar que até em sonhos tentei decifrar este enigma.O quão excitante que és tua frieza diante ao mundo,e ainda assim,um tanto dolorosa. Terei eu,tempo o bastante para abrir meus olhos e vê-lo cruzar-se ao teu outra vez? Terei tempo ao menos para...viver... outra vez?